Um Computador por Aluno
Marcos Telles
São pouquíssimas as escolas neste país [e, certamente, em muitos outros] que podem pensar, seriamente, em ter um computador por aluno no médio prazo e liderar um processo de mudança nessa direção. Como lembra Kurt Lewin, para que uma mudança ocorra é preciso haver uma insatisfação com a situação atual e isso não acontece, hoje, com a tecnologia aplicada à educação.
Bem ao contrário, na esmagadora maioria das escolas, a preocupação não está voltada para a falta de tecnologia mas, sim, para o temor causado pela simples perspectiva de adoção dessa tecnologia. A robótica existe mais como uma atividade extra-curricular do que como um apoio ao ensino da Física, as lousas digitais são uma fascinante idéia em busca de conteúdos e processos pedagógicos que justifiquem sua aquisição e os laboratórios de informática são usados para o ensino da Informática mas não conquistaram, ainda, o coração e a mente dos professores de outras disciplinas. Quando obrigados a apresentar provas e relatórios digitados, há professores que recorrem a profissionais que se dedicam a receber material manuscrito e devolvê-los em formato eletrônico; a demanda parece aquecida pois esses profissionais anunciam seus serviços, embora de forma não tão explícita, em revistas de grande circulação.
Tudo isso caracteriza a proposta de "um computador por aluno", neste momento, como um daqueles saltos que a natureza não gosta de dar. Trata-se, certamente, de um fantástico tema de reflexão sobre a Educação como um todo mas apenas uns poucos pioneiros podem considerá-lo como prioridade ou objetivo estratégico. Isso é claramente reforçado pela imagem de contexto oferecida pelo estudo do INEP, divulgado em março de 2008, que mostra que um terço dos estudantes do quarto ano do ensino fundamental aprendeu apenas o que deveria ter aprendido um aluno do primeiro ano. O que teria acontecido se o Governo tivesse levado adiante sua idéia de colocar 150.000 computadores, no conceito de um computador por aluno, numa estrutura de ensino que produz tais resultados? Teríamos tido, pelo menos, um enorme desperdício de recursos e o desgaste de um processo que apenas se inicia.
Não se pode esquecer que a proposta é sistêmica: seus vários componentes [computadores, material didático, avaliações, treinamento, custos etc.] têm que ser trabalhados ao mesmo tempo.
É clara, por exemplo, a lição da experiência mostrando que não de pode deixar exclusivamente para o professor a tarefa de descobrir como utilizar o computador no ensino/aprendizagem. Outro item importante, nesse sistema, é o CTO [custo total de operação] já que é preciso ter verba para manutenção, atualização, compra de softwares, treinamento etc. e tudo isso por muitos anos.
Aí, a dimensão do problema muda a natureza do problema e 1 computador para cada 2 alunos é uma situação pedagogicamente diferente daquela de 1 computador para cada aluno. O corolário disso é o cuidado que se deve ter com testes limitados, com alguns computadores na sala de aula e por tempo restrito. É preciso definir claramente tanto os objetivos desses testes quanto aquilo que a pesquisa está medindo; muitas pesquisas divulgadas medem apenas a reação dos alunos à presença do computador na sala e à novidade e não a contribuição do computador ao resultado de aprendizagem. O conceito é jovem e, talvez por isso, seja difícil encontrar estudos com protocolo de pesquisa e métrica de avaliação, algo cujos resultados passem além do "os alunos ficaram entusiasmados" ou "aumentou a atenção" para falar do impacto sustentado sobre a aprendizagem.
Enfim, ninguém pode ser contra computadores na sala de aula mas o uso inadequado desses computadores pode comprometer a própria idéia pois sua operação é complexa e seu sucesso depende do cuidado com um número grande de fatores; pior ainda, e muito mais assustadora, é a hipótese de se ver a falta de suporte pedagógico condizente resultando, no futuro, em estudos sérios que mostrem computadores em sala de aula prejudicando a qualidade da aprendizagem.
23/3/08