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Inovação: Difusão e Adoção
por Marcos Telles - Saturday, 9 February 2008, 17:16
 

INOVAÇÃO: DIFUSÃO E ADOÇÃO
Marcos Telles

A experiência mostra que a simples existência de uma inovação, mesmo se considerada "boa", não garante sua adoção maciça pelos potenciais usuários; a inovação pode não ser aceita ou, até, ser superada por outra inovação considerada "menos boa". A idéia determinista de "crie um produto melhor e os consumidores virão" não encontra guarida na prática. Isso vale para todos os setores de atividade, inclusive para o setor educacional [seja em seus aspectos pedagógicos, em seus aspectos administrativos e, especialmente, em seus aspectos tecnológicos que, por natureza, são centrados em inovação].

Inovação é uma idéia, procedimento, produto ou serviço que é percebido por um indivíduo como sendo "novo" e significativamente diferente daquilo que existia antes [novo para ele e não, necessariamente, para outros].

Aqui, chamaremos de "adoção" o início do uso pleno [não experimental] de uma inovação; a "adoção" é a fase final de um processo de decisão conduzido por um indivíduo ou por uma organização; esse processo começa com o conhecimento da existência da inovação e pode resultar numa adoção"ou numa "não adoção".

A "adoção" ocorre no plano do ator individual [indivíduo ou organização] e, normalmente, está associada a um processo de "difusão" que ocorre no plano da sociedade.

Definiremos "difusão" como o processo pelo qual uma inovação vai sendo adotada gradativamente por um setor da sociedade; ele vai da divulgação da existência da inovação até sua adoção por usuários e ocorre ao longo de um certo tempo.

O estudo da "adoção" e da "difusão" na área da tecnologia educacional leva em conta tanto fatores tecnológicos quanto fatores sociais.

Adoção

Há muitas teorias e modelos de difusão e adoção mas os mais acatados ainda são aqueles desenvolvidos por Rogers.

Critérios

Para Rogers, a probabilidade de adoção é maior quando a inovação:

- oferece significativa vantagem em relação à situação atual [qualidade, custo etc.]
- não é demasiado complexa [pode ser entendida e adotada sem grande dificuldade]
- apresenta resultados observáveis pelos envolvidos e por outros
- é compatível com as práticas e valores vigentes
- pode ser experimentada [podendo ,então, não ser adotada].

A literatura sugere um item adicional:

- conta com apoio para sua adoção [tempo, pessoal, recursos financeiros, apoio político etc.].

Nessa linha, vale lembrar que testes e projetos-piloto costumam receber atenções e recursos que não estarão presentes no uso corrente. Ademais, nem sempre eles seguem protocolos claros de pesquisa e nem sempre eles são avaliados segundo métricas objetivas o que torna difícil saber o que está sendo avaliado. Assim, seus resultados devem ser julgados e projetados com grande cuidado e levando em conta as condições futuras de integração daquilo que foi estudado na prática pedagógica corrente.

Etapas do Processo

Rogers define 5 etapas do processo de adoção:

- conhecimento da existência e compreensão das funções
- desenvolvimento de uma atitude favorável
- avaliação e decisão
- colocação em uso experimental
- adoção sustentada

Indivíduos como Adotadores

Para Rogers, algumas pessoas têm características que os levam a adotar inovações antes que os demais; ele chama esse pequeno grupo de "inovadores". Depois dos "inovadores", vêm os "adotadores iniciais", a "maioria inicial", a "maioria tardia" e os retardatários.

Importante lembrar que nem sempre os "inovadores" ajudam a difusão da inovação; sua atitude face ao novo, à tecnologia, ao risco e outros pode fazer com que eles sejam percebidos como "diferentes" e, assim, seu segmento social ou organização pode entender que as decisões que eles tomam nem sempre sejam as melhores para os membros tidos como "normais".

Organizações como Adotadoras

O processo decisório envolvido na adoção de uma inovação por uma organização é influenciada por diversos aspectos de sua cultura como capacidade de absorção, estrutura de poder e outros.

Capacidade de absorção é a capacidade que a organização tem de identificar, assimilar, adaptar e utilizar o conhecimento existente em seu meio externo. Parte desse conhecimento é o estoque de oportunidades tecnológicas gerado por fornecedores, concorrentes, clientes, universidades, centros de pesquisa etc. O tratamento dispensado a esse estoque pela cultura da empresa determina a trajetória tecnológica que ela vai seguir.

A decisão quanto à adoção é afetada pela estrutura de poder existente e pela percepção das alterações que a inovação poderá provocar nessa estrutura o que faz dela um processo político no qual são negociados novos papéis, nova distribuição de recursos e outros possíveis acordos entre atores. Desnecessário, aqui, lembrar que as instituições de ensino não ficam alheias a essa realidade.

É difícil imaginar um processo de adoção de inovação que seja bem sucedido sem uma firme liderança. Duas figuras extremas ganham destaque nesse quadro: aquela do agente de mudança e aquela da autoridade impositiva. O agente de mudança, graças a sua imagem interna, consegue mobilizar o coletivo em favor da mudança enquanto a autoridade impositiva determina a adoção a partir do poder de que está investido. Em qualquer caso, não deve ser esquecida a zona de liberdade de execução de que dispõe cada operador final, o que pode comprometer a continuidade do processo de adoção. Assim, o perfil ideal de líder seria alguém com elevado nível hierárquico que se envolvesse a fundo no processo, dando apoio à inovação e causando a participação dos vários escalões afetados.

Na outra direção, um equívoco freqüente é a referência a uma possível "resistência à mudança" latente pela qual pessoas seriam contra a mudança por ser ela uma mudança. Ninguém é contra uma mudança que o beneficia; as pessoas são contra as mudanças que geram perdas ou criam insegurança. Por isso, qualquer processo de mudança deve incluir negociações quanto a perdas e informações capazes de reduzir incertezas para diminuir o número de envolvidos que se sentem fora de sua zona de conforto.

Difusão

Além de se preocupar com a adoção, Rogers desenvolveu teorias sobre difusão da inovação que se apoiam nos conceitos de:

- características da inovação
- canais de comunicação
- tempo 
- características estruturais

Características da Inovação.

Os principais características de uma inovação que influenciam sua adoção são:

- percepção de sua vantagem relativa em relação àquilo que ela substitui
- sua compatibilidade com as necessidades, experiências e valores existentes
- maior ou menor dificuldade de sua compreensão e uso
- possibilidade de testá-la ou experimentá-la antes de adotá-la
- visibilidade e mensurabilidade de resultados

Assim, é da máxima importância que sejam claramente mostradas as vantagens que a inovação tem sobre o que está em uso e que isso seja feito do ponto dos vários atores envolvidos [por ex: os alunos, os professores e a própria instituição de ensino].

Discussão, análise, informação e treinamento devem buscar o aumento da aderência da inovação aos valores e práticas correntes bem como a redução do grau da complexidade percebida e, com isso, facilitar a compreensão e o uso da inovação

Existe, aqui, uma questão teórica curiosa: oferecer modelos e apoiar usos seria, para alguns, uma forma de cercear a autonomia do professor no uso da inovação. Isso é uma posição extremada já que a experiência mostra que, sem modelos e sem apoio, o professor não usa ou leva um tempo enorme para adotar a inovação. Os fatos mostram que é depois do domínio do uso que vem a fase da busca de novos usos e criação de novos modelos .

Canais de Comunicação

A existência e o uso da inovação têm que chegar ao conhecimento dos potenciais usuários. Uma constatação interessante, nesse processo, é aquela de que a mídia de massa é o canal mais importante para fazer a informação inicial chegar ao público-alvo e que a comunicação interpessoal tem peso maior na fase de avaliação.

De outra parte, a comunicação inicial tende a influenciar mais o grupo de inovadores [2 a 3% do total], fato que deve orientar seu desenho.

Tempo

Mesmo grandes idéias e produtos levam tempo para serem amplamente aceitos e adotados por um segmento da sociedade, o que é característico de toda a mudança social. É raro ver-se uma "massa crítica" de uso surgir rapidamente.

O número de indivíduos ou organizações que adotam uma inovação cresce ao longo do termpo segundo uma curva em forma de S: um período de crescimento lento e gradual é seguido por período de crescimento rápido ao qual se segue uma fase de estabilização que, possivelmente, terminará em declínio.

Note-se que a velocidade de adoção é influenciada pelas características da inovação [acima mencionadas] e pelas características do público-alvo, seja ele pessoa física ou organização [estrutura, tamanho, centralização de poder etc].

Quem está entro do processo tem problemas de avaliação em relação ao tempo: de forma geral, a curto prazo as coisas acontecem mais devagar do que se espera e, a longo prazo, o futuro chega mais depressa do que o previsto

Características Estruturais

As características estruturais das organizações que compõem um setor de atividade influenciam fortemente a difusão da inovação. As reações serão diferentes segundo a força de lideranças setoriais, canais de comunicação específicos e interações entre os membros.

9/2/08