Comunidades de Prática
por Marcos Telles
Comunidade de Prática [CoP], aqui, será definida como um grupo de pessoas com um interesse comum que constroem ou fazem parte de um contexto social, definido por normas, com o objetivo de compartilhar conhecimentos, experiências, visões, valores e procedimentos numa área diretamente relacionada com sua prática corrente.
É o contexto cultural formado por conhecimento, linguagem, ferramentas, métodos etc., presentes numa "atividade ou prática diária" comum aos participantes, que permite o surgimento de uma "comunidade" com identidade própria e vínculos entre seus membros e entre seus membros e própria comunidade.
O objetivo principal de aprendizagem diferencia a comunidade de uma "equipe de trabalho" [cujo objetivo é completar tarefas ligadas a algum tipo de processo ou função], de uma "força tarefa" [que se extingue uma vez completada a missão] e de um "network" [que não tem propósitos específicos].
As corporações de ofício medievais, os grupos de prática anteriores ao computador [sobretudo nas áreas de RH e em escritórios de advocacia], os grupos de amantes de vinhos ou de charutos são alguns exemplos que mostram que o conceito não é novo; o que mudou foi o leque de novas possibilidades de interação e trabalho conjunto criado pela modernas TICs [ tecnologias de informação e comunicação] , o que viabiliza a criação de novos formatos de comunidade [comunidades virtuais ou com fortes componentes virtuais].
Normas e Estrutura
Em geral, as comunidades de prática revestem-se de um caráter informal e sua estrutura baseia-se muito mais nos componentes da cultura comum do que nas regras.
Há comunidades que operam só na internet [muitas vezes, internacionais], outras centradas em atividades na internet mas com reuniões presenciais, sobretudo para networking, e comunidades centradas em reuniões presenciais que usam a internet mais como ferramenta de comunicação funcional [marcar reuniões, por exemplo] ou entre membros.
Muitas comunidades que operam totalmente na internet caracterizam-se pela quase-ausência de regras, com inscrições permanentemente abertas a quem quiser se inscrever, plena liberdade de formação de subgrupos etc. Qualquer tentativa de controle é, aí, rechaçada com veemência por medo de que uma institucionalização restrinja a criatividade ou elimine o caráter de neutralidade que as comunidades usualmente têm.
Comunidades que têm reuniões presenciais enfrentam problemas físicos que exigem mais regras. De fato, não é possível definir o local e programar o café de uma reunião sem ter idéia do número de presentes e pode ficar complicado promover reuniões freqüentes com 500 pessoas [número que não causa tantos problemas numa comunidade apenas virtual].
Isso impõe, pelo menos, um número pequeno de regras como um processo de admissão e um processo de saída. A admissão de novos membros pode ser função de um número limite definido a partir de critérios físicos ou de critérios de qualificação [desejo de maior homogeneidade, por exemplo, ou de imagem de exclusividade para valorização profissional]; os critérios de saída podem ser limitados a um recadastramento voluntário periódico [algum membro pode achar deselegante pedir seu afastamento embora não tenha mais interesse pelo grupo].
Outro caso interesse de necessidade de regras está ligado a uma maior institucionalização da CoP. É ilustrativo o caso da comunidade que resolve criar um site e percebe que tem que decidir quem o hospeda, o que pode ser publicado, quem administra o conteúdo, quem fala pelo grupo etc.
Ciclo de Vida
É fácil iniciar uma comunidade de prática mas ela só terá sucesso se seus participantes encontrarem valor nessa participação; por isso, muitas comunidades são criadas e não chegam a existir realmente e outras morrem uma vez passado o entusiasmo inicial com a idéia.
Não é raro, porém, que uma comunidade formada com um objetivo tenham seus propósitos alterados pelas prioridades definidas pelos participantes sem que isso seja explicitado ou registrado; os vínculos existentes entre os participantes e os benefícios daí decorrentes mostram-se mais fortes do que os vínculos com o objetivo inicial.
Ferramentas
A ferramenta mais usada pelas comunidades é aquela dos "grupo de discussão" que recebe e-mails de um participante e os distribuem automaticamente aos demais, mantém um cadastro dos participantes, oferece fóruns, compartilhamento de arquivos, calendários de eventos etc. Você encontra serviços desse tipo pagos e gratuitos mas os gratuitos mostram publicidade que pode conflitar com os interesses do grupo. O wiki é outra ferramenta que ganha destaque junto às CoPs. Não se deve esquecer que a participação numa CoP exige tempo e que ele pode ser maior ou menor em função da ferramenta adotada.
Fatores de Sucesso
É bastante aceita idéia de que o principal fator de sucesso de uma CoP é sua capacidade de criar "excitação" em seus membros seja por sua capacidade de resolver questões concretas seja pelo estímulo ao desenvolvimento individual que ela oferece.
Embora essa "excitação" deva, necessariamente, emergir do próprio grupo, tudo indica que uma boa liderança pode ajudar isso a acontecer mais rapidamente e, tão importante quanto, a sustentar-se no tempo.
A liderança deve estar atenta à presença e alguns requisitos como: estímulo a um clima de tolerância a idéias divergentes, existência de um certo ritmo de trabalho, surgimento de novos interesses catalizadores a serem explorados e atenção para os participantes [ lembrando, sempre, que nem todos os membros têm o mesmo nível de participação o que não significa que eles não tenham uma alta percepção de valor quanto ao grupo].
O grande problema, aí, é que o exercício de uma liderança desse tipo [individual ou compartida] toma tempo e nem sempre a pessoa mais indicada está disposta a exercê-la.
19/2/08
29/1/08