LOUSAS DIGITAIS
documento de discussão preparado por Marcos Telles
1- Introdução
Quadro-negro e quadro-verde eram imbatíveis em matéria de simplicidade de uso e nenhuma necessidade de manutenção; o flip-chart requeria papel e canetas; o quadro-branco precisava de canetas, apagadores com líquido especial e manchava; o retro-projetor prestava um bom serviço mas foi substituído pelo power-point que apresenta as mesmas características: o professor faz os slides, pode contextualizá-los com facilidade e não se preocupa com a máquina; mesmo assim, o power-point é muito mal usado em sala de aula [ainda há professores que ficam lendo slides cheios de informação e os distribuem como notas de aula]; poucas são as editoras que oferecem power-points com seus textos.
interatividade, ausente nos exemplos anteriores, torna atraente o conceito da lousa eletrônica mas suas vantagens não vêm, automáticamente, com a aquisição do aparelho; alguns desafios a superar são óbvios: treinamento do professor, preço, infraestrutura de TI e material específico; mesmo se houver um repositório de material, caberá ao professor procurar, localizar o que interessa e contextualizar o material [se o repositório for grande, isso bordeja o impossível, se for muito pequeno, ele será inútil].
A experiência da Inglaterra oferece importantes contribuições a uma séria reflexão sobre o uso das lousas digitais no Brasil. Ademais, saber o porquê da aquisição de lousas digitais por escolas pode indicar a postura delas em relação a outras tecnologias.
2- A Experiência Britânica
2.1- Preliminarers
O governo britânico investiu pesadamente no equipamento de salas de aula com lousas digitais. Em muitas escolas, todas as classes foram equipadas ao mesmo tempo; não houve período de transição e o principal recurso de apoio acabou sendo a troca de experiências com colegas. Outro fato interessante registrado foi a queda gradual do interesse dos alunos pela novidade o que levou alguns professores à opção de introduzir variação não usando as lousas em todas as aulas. Nas escolas em que as lousas foram introduzidas há 5 anos, há muitos alunos para os quais elas sempre foram o instrumento padrão de comunicação.
As autoridades governamentais tentaram fazer com que o nome geralmente adotado fosse o equivalente a “lousa digital” [digital whiteboard] mas a denominação que acabou por prevalecer e é correntemente usada foi “lousa interativa” [interactive whiteboard], justamente aquela que as autoridades não queriam por entender que a interatividade não é uma propriedade da lousa mas, sim, uma conseqüência da forma pela qual ela é utilizada pelo professor.
Assim, não causou estranheza o grande número de expositores da BETT-2008 de Londres, a maior feira de tecnologia aplicada à eduacação do mundo, que apresentaram produtos ligados a essa área [hardware e software] nem o muito que se escreveu a respeito.
No campo do hardware, um importante item de evolução tecnológica foi a presença de modelos com tela bastante resistente que responde tanto a dedos quanto a canetas e que aceita múltiplos usuários simultaneamente.
A enorme oferta de softwares para lousas digitais [aplicativos e conteúdos] registrados na BETT-2008 explica o porquê de o BECTA, orgão do governo britânico que cuida da aplicação das TICs na educação, estar promovendo a interoperabilidade desses produtos entre os diversos fabricantes de lousas digitais; a primeira etapa desse projeto deverá estar concluída em junho de 2008 e o padrão comum deve estar pronto em junho de 2009.
2.2- Relatório Manchester
Em dezembro de 2004, uma equipe da Manchester Metropolitan University liderada por Bridget Somekh completou a avaliação dos resultados do “Projeto de Lousas Digitais nas Escolas Primárias” que, em 2003-2004, forneceu substanciais recursos para a aquisição e operação de lousas digitais em escolas primárias de 21 regiões britânicas.
Básico 2 [ver anexo sobre sistema educacional britânico]
O relatório constatou que, em algumas algumas matérias do Básico 2, quanto maior a experiência do professor no uso da lousa digital, maior a probabilidade de ganho no desempenho dos alunos. Em particular, o relatório registra os seguintes resultados:
- matemática no básico 2: meninos e meninas com desempenho anterior médio e alto, participando de aulas que fizeram uso intensivo de lousas digitais, mostraram progresso equivalente a 2,5 a 5 meses num curso de 2 anos; o efeito foi menor em meninos e meninas com baixo desempenho anterior;
- ciências no básico 2: todos os alunos, menos meninas com desempenho elevado, mostraram resultados melhores quando do uso da lousa digital; o progresso mais acentuado foi registrado entre meninos com desempenho anterior baixo;
- inglês no básico 2: nenhum efeito significativo foi registrado em relação ao uso da lousa digital; foi proposta uma análise com mais dados;
- redação no básico 2: meninos com desempenho anterior baixo obtiveram 2,5 meses de progresso adicional;
Básico 1 [ver anexo sobre sistema educacional britânico]
No Básico 1, o relatório menciona uma relação entre obtenção de progressos pelos alunos e grau de integração da lousa digital nas atividades correntes em sala de aula. Dados específicos constantes do relatório são:
- matemática: meninas com alto desempenho tiveram proresso de 4,5 meses o que lhes permitiu alcançar o patamar dos meninos com alto desempenho;
- ciências: foram registrados sinais de progresso entre meninas de todos os níveis de desempenho e entre meninos de nível médio e alto;
- inglês: meninas e meninos de baixo desempenho não foram afetados pelo uso da lousa digital mas os demais registraram progressos.
2.3 - Relatório Gemma Moss
Gemma Moss [School of Educational Foundations and Policy Studies, Institute of Education, University of London] comandou uma avaliação do projeto que teve por objetivo equipar com lousas digitais pelo menos um departamento temático de cada escola secundária de Londres [2003-2004].
Segundo o relatório, embora a novidade fosse bem recebida pelos alunos, o crescimento da motivação teve curta duração. Ademais, estudos estatísticos não revelaram nenhuma melhoria de desempenho no primeiro ano do projeto.
O relatório sugere que a transformação da pedagogia no nível secundário deva ser vista como um objetivo de longo prazo cuja consecução possa ser ajudada, em condições adequadas, pelo uso de lousas digitais. Por exemplo, a discussão da tecnologia deve ser precedida pela discussão da pedagogia; aí, deve ser claramente analisado como a tecnologia, no caso a lousa digital, pode apoiar, ampliar ou transformar a pedagogia vigente. Estimular a discussão dos pontos fortes e fracos de cada tecnologia para usos específicos deve ser uma preocupação permanente de cada escola.
2.4- Relatório Futurelab
Tim Rudd realizou, para o Futurelab, uma meta-análise dos estudos mais recentes sobre lousas digitais. Num extremo, ele encontrou relatórios que identificam casos nos quais o uso de lousas digitais gerou melhora expressiva no processo ensino/aprendizagem. Na outra ponta, ele localizou pesquisas que indicam que a mera introdução dessa tecnologia é insuficiente para criar maior interatividade na classe; bem ao contrário, muitas vezes ela pode ser utilizada para reforçar a posição central do professor e o controle das interações. Muitos outros estudos situam-se entre esses dois extremos e procuram analisar as condições que geram o uso mais ou menos eficaz da lousa digital, condições essas que variam bastante e não são, ainda, totalmente claras.
Em especial, parece haver ampla concordância quanto ao fato de que o impacto positivo das lousas digitais tem relação direta com a confiança desenvolvida pelo professor em relação ao uso dessa tecnologia através de treinamento, aquisição de familiaridade e disponibilidade de tempo para uso e experimentação.
De outra parte, o relatório lembra estudos que sugerem 3 fases na adoção da lousas digitais:
Fase 1: adoção no quadro de práticas correntes, geralmente com o aluno seguindo como figura passiva;
Fase 2: integração nas práticas escolares, maior preocupação pedagógica e maior interatividade do aluno com a lousa e
Fase 3: desenvolvimento de novos materiais e novas práticas com grande envolvimento dos alunos e construção de conhecimento pela interação entre eles.
O relatório faz referência a idéia de que a introdução de lousa digitais, por si só, não transforma a pedagogia em uso e que a interatividade em classe pode ser estimulada sem o uso da lousa digital. Embora concordando com isso, ele lembra que essa tarefa pode ser enormemente facilitada pela adoção de modernas tecnologias, como a lousa digital, desde que isso ocorra num quadro de clara compreensão do papel da tecnologia e dos pressupostos pedagógico a isso associados.
Como conclusão, pode-se citar Lindsey Grant, também do Futurelab, quando ela diz que “não se trata apenas de ter acesso à tecnologia mas sim e como as pessoas podem utizá-la de modo a que isso faça diferença em suas vidas”.
3- A Experiência Brasileira [até 26/1/2008]
Porque as escolas brasileiras usam lousas digitais? Uma primeira hipótese seria aquela de que lousas digitaiss são compradas para atender necessidades pedagógicas mas parece não ser esse o caso aqui pois os relatos indicam que quem comprou ainda está procurando modos de usá-las; a hipótese de que a compra teria por objetivo uma pesquisa formal de uso também não encontra guarida nos relatos; uma terceira hipótese seria ver na compra uma decisão administrativa ligada a uma desejada imagem de modernidade para a escola mas não está claro se isso funciona; há casos de instituições que compraram muitas lousas digtais que não são usadas pelos professores o que leva os alunos a apontá-las como um uso equivocado dos recursos gerados pelas altas mensalidades cobradas. Fenomeno semelhante ocorreu no sul da Itália onde o governo investiu muito dinheiro em lousas digitaiss mas os professores não as adotaram ; aí o governo gastou mais dinheiro em conteúdos que também não forma adotados.
Outros problemas ligados à adoção de lousas digitais são a infraestrutura de TI necessária [maior manutenção gerada por maior volume de uso, atualização etc.], necessidade de contextualização de materiais genéricos, uso alternativo de computador com projetor etc.
No geral, parece que ainda precisam ser buscadas respostas claras e localizadas [Brasil] para 2 questões centrais:
- quais as necessidades pedagógicas que as insituições de ensino querem satisfazer com a adoção de lousas digitais?
- qual a relaçãocusto/benefício da adoção de lousas digitais [em relação, por exemplo, a computadores na sala e considerando o total cost of ownership?]?
ANEXO
Sistema Educacional da Grã-Bretanha
Segundo o British Council:
- mais de 90% dos alunos da Grã-Bretanha freqüentam escolas financiadas pelo governo
- escolas primárias usualmente são mixtas; escolas secundárias podem ou não receber ambos os sexos
- por lei, crianças entre 5 e 16 anos são obrigadas a freqüentar uma escola;
- a Grã-Bretanha criou o Curriculum Nacional em 1992 e todas as escolas financiadas pelo governo são obrigadas a adotá-lo; escolas independentes ou privadas [que, na Grã-Bretanha, são chamadas “public schools”] não têm essa obrigação;
-o Curriculum Nacional define 4 “estágios”: estágio básico 1 [primeiro e segundo anos, para alunos até 7 anos de idade], estágio básico 2 [do terceiro ao sexto ano, idade de 7 a 11], estágio básico 3 [do sétimo ao nono ano, idade de 11 a 14], estágio básico 4 [décimo e décimo-primeiro anos, idade de 14 a 16, preparação para a universidade ou formação vocacional]
26/1/2008