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Memória e Modelos Mentais
por Marcos Telles - Monday, 24 January 2005, 05:19
 

DynamicLab Gazette - 19- 04 -04
reflexões sobre a aprendizagem on-line


Memória e Modelos Mentais
Paula de Waal e Marcos Telles - Abril, 2004


Uma pergunta importante a ser feita é "como as pessoas aprendem?". A resposta a isso pode ser dada através da discussão da "memória"e dos "modelos mentais".

Memória

Um modelo de grande utilidade é aquele que descreve a aprendizagem como um processo no qual a informação:

- é recebida por uma " memória sensorial",
- é processada e codificada por uma "memória operacional" e
- é armazenada por uma "memória permanente".

Quando você vê uma pessoa pela primeira vez, a memória sensorial recebe um número enorme de informações mas se concentra apenas naquelas que chamam mais a atenção seja pelo contexto seja pela ligação com informações que você já tem (por ex: se é um momento de alegria, pode ser o sorriso da pessoa o que chama a sua atenção ou, se você detesta cigarro, você vai se fixar no fato de ela estar fumando). Isso é transmitido à memória operacional que processa a informação (por ex: João é desagradável porque fuma) e lhe dá a forma na qual ela é armazenada na memória permanente. Num momento futuro, quando alguém falar do João, a memória operacional ativará a memória permanente que informará que João é desagradável porque fuma.

As informações (por ex: perfil de uma pessoa, como digitar num teclado etc.) são armazenadas na forma de "modelos mentais" ; modelos mentais combinam informações e suas interações e formam redes temáticas; um especialista terá, sobre seu assunto, uma rede muito maior que um não especialista embora possa ter redes menores sobre outros assuntos.

Quando do surgimento de um problema, da tomada de um decisão etc., a "memória operacional" ativa a "memória permanente" para recuperar as informações requeridas naquele momento.

Quando essa ativação é muito freqüente (por ex: atividades para dirigir um carro), ela passa a ser feita de forma automática, sem a necessidade de uma ação consciente da memória operacional.

O volume de modelos mentais e o nível de automação de recuperação de informações da memória permanente é que caracteriza um especialista ou expert. Um jogador de tenis principiante precisa pensar em cada movimento que vai fazer para rebater uma bola; um campeão faz tudo isso automaticamente porque ele já repetiu tudo incontáveis vezes e já viveu situações de todos os tipos nas quadras.

Esse modelo de memórias tem conseqüências diretas para o processo de aprendizagem:

- o tempo de permanência da informação na memória operacional é muito curto mas pode ser um pouco ampliado seja pela conjugação de sensações (ex: apresentação de um gráfico que é explicado verbalmente), seja pela repetição da informação (ex: você repete um texto várias vezes para decorá-lo);

- a memória operacional não consegue trabalhar com mais que 7 (mais ou menos 2) informações novas ao mesmo tempo ou ainda menos se essas informações dependerem umas das outras para serem compreendidas; assim, é importante que um assunto complexo seja apresentado em blocos de informações, e não de uma só vez, para que essas informações possam ser processadas e não se percam (chama-se a isso "reduzir a carga cognitiva" ou seja o esforço da memória operacional);

- a carga cognitiva total resulta da soma da carga cognitiva intrínseca ao assunto (ex: grau de interatividade dos conceitos de um assunto) com a carga cognitiva extrínseca (ex: forma pela qual o assunto é apresentado num livro); material de apoio que reduza a carga cognitiva deixará a memória operacional livre para sua ação de compreender e codificar a informação e passá-la à memória permanente;

- se você tem um gráfico e um texto para explicá-lo, o leitor terá que dividir sua atenção entre gráfico e texto; se você coloca as explicações no próprio gráfico (blocos de texto, por ex.), a carga cognitiva será reduzida; mais ainda, é preciso ver se as duas fontes de informação são necessárias ou são apenas redundantes; se o gráfico sozinho ou o texto sozinho transmite a informação, não há porque aumentar a carga cognitiva apresentando as duas coisas.

- a discussão de problemas acompanhados de sua solução ajuda o leitor a construir modelos mentais de situações e de processos impondo baixa carga cognitiva à memória operacional.

- o uso da informação residente na memória operacional (ex: exercícios, prática) ajuda o processamento da informação e sua transferência para a memória permanente, o que reduz a carga cognitiva sobre a memória operacional.

- as informações são gravadas na memória permanente junto com "pistas" (estímulos presentes ou memórias despertadas no momento) que são usadas para a recuperação dessas informações. Uma das mais importante dessas pistas é o contexto em que ocorreu a percepção da informação memorizada. Assim, a pessoa terá maior facilidade de localizar na memória uma informação se as condições no momento da recuperação forem semelhantes às condições no momento da codificação. Decorre daí que as condições da aprendizagem devem ser tão próximas quanto possível das condições de aplicação do que for aprendido;

- a capacidade de armazenamento da memória permanente parece ser infinita mas, com a idade, a capacidade de recuperar essa informação pode diminuir.

Modelos Mentais

Vimos acima que, quando olhamos para uma pessoa, nós recebemos (através da memória sensorial) um número enorme de informações (altura, cor do cabelo, jeito, sensualidade, maneira de vestir etc.).

Nossa memória operacional, contudo, não processa todos esses detalhes; ela reduz isso a uma modelo mais simples (no qual apenas algumas das informações são registradas) e armazena esse modelo em nossa memória permanente. Esse modelo é chamado de modelo mental.

O novo modelo mental será um filtro pelo qual veremos aquela pessoa; de fato, nós veremos o modelo que construímos. Mais ainda: como tudo o que entra na memória permanente é relacionado com os modelos que já estavam lá, o novo modelo poderá influenciar a construção de modelos futuros.

Isso significa que dois observadores poderão ver a mesma pessoa, no mesmo instante, e formar dela dois modelos mentais diferentes. Mais tarde, quando eles voltarem a falar daquela pessoa, eles poderão estar usando modelos mentais muito diferentes o que pode equivaler a estarem falando de duas pessoas diferentes. E nenhum deles estará certo ou errado pois modelos são, sempre, uma representação incompleta de alguma coisa.

Nós não fazemos isso só com pessoas; fazemos, também, com objetos, situações e formas de agir. Ao presenciar um acidente, uma pessoa poderá julgar que ele foi resultado de imprudência enquanto outro poderá achar que foi uma fatalidade. Para usar um telefone, por exemplo, nós recorremos a um modelo mental que está armazenado na nossa mente. E cada um de nós tem um modelo mental de si mesmo.

É importante notar que um modelo mental torna-se invisível para o seu "dono"; as pessoas acham que estão sendo fiéis aos "fatos", estão sendo lógicos ou estão usando a sua experiência e não percebem que, de fato, estão seguindo seus modelos mentais. Por isso, fica muito difícil contestar diretamente uma visão baseada num modelo mental pois a outra pessoa tem aquilo como verdade ou certeza. Decorrência disso é que qualquer mudança exige a mudança de modelos mentais.

Uma forma comum de criar modelos mentais é pela associação de coisas que nós não conhecemos a coisas que nós conhecemos. Para explicar como a eletricidade entra em nossa casa por um fio e depois atinge todos os cômodos, nós podemos associar a eletricidade a um fluxo de água e os fios a canos. Isso se chama uma metáfora.

Quando apresentamos uma metáfora, nós reduzimos o esforço que está sendo imposto à memória operacional (carga cognitiva) o que torna mais fácil o processamento da informação e sua armazenagem na memória permanente.

Assim, a metáfora pode desempenhar um importante papel num processo de aprendizagem; o grande cuidado, aí, é utilizar metáforas que sejam bastante claras para o público-alvo sem o que o efeito desejado não será alcançado.

Quando um modelo mental é comum aos elementos de um grupo social ou organização, ele é chamado de paradigma social e cria o padrão de como as coisas "devem ser" e daquilo que é "certo" e é "errado".

Em educação, por exemplo, dá-se, hoje, grande importância ao paradigma construtivista (construtivismo) que entende que o conhecimento não é, simplesmente, transmitido do professor para o aluno mas é construído pelo aluno com a ajuda do professor.

O conjunto dos nosso modelos mentais determina não só a maneira pela qual nós agimos mas, também, a maneira pela qual nós vemos o mundo (weltanschaung, mundo visão, cosmovisão etc.). Por exemplo, a cosmovisão de um professor influenciará a maneira pela qual ele vê o processo de aprendizagem e o próprio papel do professor nesse processo.

Da maior importância para o processo de aprendizagem é a compreensão do modo pelo qual o cérebro busca resolver problemas. Foi dito acima que, face a um problema, a memória operacional procura na memória permanente um modelo mental que permita a sua solução. Se ela não encontra um modelo já aplicado àquela situação, ela procura modelos válidos para outras situações que possam ser adequados à situação presente; quando ela encontra, acontece o que se chama de "transferência do aprendizagem".

Quando um professor apresenta uma técnica e, depois, discute com alunos diversos problemas resolvidos com essa técnica mas em situações diferentes, ele está facilitando o processo de aprendizagem.

Aprendizagem

Tudo isso mostra que qualquer percurso educacional deve ser desenhado com vistas facilitar a recuperação da informação residente na memória permanente quando ela for necessária; afinal, a possibilidade de recuperar essa informação é que confere ao indivíduo uma "capacidade".

fim