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Dimensões da Aprendizagem - Marzano para Adultos
por Marcos Telles - Monday, 24 January 2005, 05:17
 

DynamicLab Gazette - 29-03-04
reflexões sobre a aprendizagem on-line

Dimensões da Aprendizagem - Marzano para Adultos
Paula de Waal e Marcos Telles - Março, 2004


Trabalhando com e-learning para adultos, não nos causa mais surpresa o quanto podemos aprender com os trabalhos voltados para salas de aula do ensino infantil, fundamental e médio (K-12 americano). Nossa edição anterior sobre o Seminário Internacional de Objetos de Aprendizagem é um exemplo disso.

Pesquisando nessa linha, chegamos a Robert Marzano, que é um senior scholar na Mid-Continent Research for Education and Learning em Aurora, Colorado, associate professor na Cardinal Stricth University em Milwaukee, Wisconsin, vice-presidente da Pathfinder Education Inc.e presidente da Marzano & Associates em Centennial, Colorado. Ele escreveu 20 livros e 150 artigos e já fez palestras em 25 países.

Seu trabalho procura transformar pesquisas sobre cognição em práticas utilizáveis nas classes do K-12. Marzano comandou uma equipe professores e psicólogos que realizou um estudo sobre estratégias de instrução em sala de aula que melhoram a aprendizagem; resultou, daí, o livro Dimensions of Learning publicado pela ASCD- Association for Supervision and Curriculum Development em 1992 (www.ascd.org)

O título Dimensions of Learning refere-se ao conceito que permeia toda a obra: o processo de aprendizagem tem 5 dimensões que precisam ser consideradas para que a aprendizagem desejada realmente ocorra:

- alunos precisam ter atitudes e percepções positivas sobre a aprendizagem,
- alunos precisam identificar padrões ou ligar a informação nova à informação de que já dispõem,
- alunos precisam ampliar e refinar o conhecimento,
- alunos precisam aplicar e usar o conhecimento de forma significativa
- alunos precisam desenvolver hábitos mentais produtivos.

O problema semântico é, aqui, sério; ao invés de "aluno", seria mais adequado utilizar a palavra "aprendiz", que tem a acepção muito mais ampla de "aquele que aprende". Infelizmente, em seu uso mais corrente, essa palavra está associada ao aprendizado de um "ofício ou arte" como ensina o Aurélio. Estamos criando coragem para adotar, definitivamente, o neologismo "aprendedor" que nos parece resolver a questão.

É importante notar que cada dimensão é importante em si mesma e que essas dimensões não formam uma seqüência a ser considerada num plano de aula. O professor deve, sempre, levar em conta os hábitos mentais, os interesses, o senso de pertencer para estimular os alunos em seu esforço de aprendizagem. Isso vale tanto para aulas expositivas quanto para aulas interativas.

Mais ainda, cabe ressaltar que da aceitação das idéias de Marzano define fortes requisitos tanto para o conteúdo quanto para os método de avaliação dos cursos, que deverão levar em conta as "dimensões" previstas. Isso pode exigir alterações profundas em práticas correntes, o que foi o objetivo maior tanto da pesquisa quanto do livro.

Primeira Dimensão

A primeira dimensão diz respeito àquilo que tem que ser feito para desenvolver nos alunos atitudes e percepções positivas em relação à aprendizagem; ela inclui 4 blocos de itens:

- o conforto físico,
- a aceitação por professores e colegas (componente emocional),
- regras claras quanto a procedimentos e
- adequação das tarefas propostas (em termos de valor, clareza e adequada dificuldade).

Se isso é importante para crianças, não o é menos para adultos. Nós entrevistamos todos os candidatos a um programa que dirigimos e que tem como importante componente um curso on-line. Se o candidato aprovado pretende trabalhar na internet em casa, à noite, nós sugerimos que ele faça um "contrato" com a família, definindo seu direito de uso do computador e seu direito de não ser interrompido num período acordado; só assim ele pode ter condições de entorno favoráveis ao aprendizado.

De outra parte, numa dessas entrevistas, dissemos a um candidato que esperávamos que ele acessasse a internet, pelo menos, a cada dois dias embora recomendássemos que ele o fizesse todos os dias. Durante o curso, por engano, foi postada uma tarefa para ser cumprida até o dia seguinte; o candidato, que entrava na internet várias vezes ao dia, registrou um veemente protesto dizendo que ele podia cumprir o prazo mas que essa solicitação violava as regras estabelecidas! O prazo foi corrigido com um pedido de desculpas.

Por fim, vale lembrar que a importância da percepção de valor da tarefa, atividade ou exemplo por parte do aluno adulto é um ponto enfatizado à exaustão pela andragogia.

Segunda Dimensão

A segunda dimensão preocupa-se com as formas de ajudar o aluno a adquirir conhecimento, integrá-lo com o conhecimento que já tem e retê-lo na memória.

Isso está intimamente ligado com os conceitos de esquemas mentais e das memórias "sensorial", "operacional" e "permanente" (que trataremos em próximas edições).

A idéia básica é de que a estratégia de ligar o conhecimento novo ao conhecimento já existente facilita sobremodo a criação de modelos mentais e a fixação do conhecimento na memória permanente, o que coloca a busca do formato dessa estratégia como tarefa maior do professor.

Importante, também, é a distinção entre o conhecimento declarativo (saber que) e conhecimento procedural (saber como).

Imagine alguém que saiba tudo sobre o tenis: regras, posições corretas, estratégias vencedoras etc.; ele tem conhecimento declarativo sobre o assunto (ele sabe falar sobre o tenis). Já a pessoa que pega uma raquete, joga bem e ganha o jogo tem conhecimento procedural nesse campo. Cabe lembrar que uma pessoa pode ter os dois tipos de conhecimento e que, muitas vezes, isso é indispensável.

Freqüentemente, o conhecimento procedural é muito difícil (ou, até, impossível) de ser verbalizado; decorre daí que o conhecimento procedural acumulado numa empresa é difícil de ser copiado e, por isso, constitui-se em vantagem estratégica.

Um tema que sempre gera grandes discussões na área da Administração de Empresas é a definição do preço de venda de um produto a partir da idéia de que quem fixa o preço é o mercado e não o custo. A estratégia para discutir isso varia muito segundo o perfil da classe: se algum aluno já teve contato prévio com apuração de custos, o professor pode esperar enorme resistência à idéia se não explicar o valor e o uso específico que essa apuração tem para outros fins (ligar o conceito aos modelos mentais existentes e evitar que isso aconteça em termos de confronto).

Terceira Dimensão

A terceira dimensão tem a ver com a extensão e refinamento do conhecimento.

O aluno deve ser estimulado a ir além daquilo que já aprendeu acrescentando novos conceitos e estabelecendo novas relações.

Segundo vários autores, isso exige atividades como: questionar, comparar, classificar, fazer induções, fazer deduções, abstrair, analisar erros e analisar perspectivas.

O professor deve, aí, preocupar-se com a escolha do conhecimento a ser aprofundado quanto com as estratégias a serem usadas para isso. Sobre isso, há consenso sobre a importância da proposição de perguntas e tarefas "difíceis" ( problemas complexos e mal-estruturados) nesse processo de ampliação do conhecimento.

Quarta Dimensão

A quarta dimensão, considerada central por Marzano, é aquela da aplicação do conhecimento de forma significativa. De fato, a aprendizagem fica extremamente facilitada quando o aluno percebe como ele pode aplicar aquilo que ele está aprendendo; isso é ainda mais forte quando ele percebe que essa aplicação pode acontecer além do limite da sala de aula.

A aplicação em uma área do conhecimento adquirido em outra área é chamada de "transferência de conhecimento" (transfer of knowledge) e será objeto de uma das nossas próximas edições.

Marzano aconselha o professor a estimular a transferência de conhecimento através de cinco classes de atividade:

- Tomada de Decisão,
- Resolução de Problemas,
- Invenção,
- Pesquisa e
- Indagação Experimental.

Quinta Dimensão

A quinta dimensão, refere-se à função que o professor tem de pensar em estratégias de ensino que ajudem os alunos a "aprender a aprender" através da aquisição de hábitos mentais produtivos como:

- buscar clareza e precisão,
- manter a mente aberta,
- restringir a impulsividade,
- avaliar a eficácia de suas ações,
- buscar a ampliação de seus limites,
- ter consciência das necessidades de recursos,
- usar feedback,
- perseguir intensamente objetivos de longo prazo,
- ter e manter padrões próprios de avaliação,
- buscar ângulos novos na análise de problemas
- etc.

Temos um amigo que trocou sua filha de escola porque, embora ela recebesse um elevado volume de informação, ela apresentava visível dificuldade em desenvolver procedimentos próprios de aquisição de conhecimento; para ela, era difícil aprender sozinha..

Uma experiência muito bem sucedida com adultos em nosso cursos presenciais foi a introdução de uma "oficina de criatividade" de um dia inteiro. Um aluno que não havia dito quase nada durante as aulas anteriores, tirou a camisa e participou entusiasticamente de um karaoke enquanto outro, que ameaçou ir embora se tivesse que sentar no chão, acabou pulando corda sem sapato ao ritmo de rock'n roll; ambos mudaram profundamente seu comportamento nas aulas que se seguiram sobretudo por conseguirem manter a mente aberta e buscar a ampliação de seus limites.

Além das Dimensões

O trabalho de Marzano não se restringe à definição das Dimensões. Ele especifica alguns pressupostos básico para o ensino eficaz e discute as competências a serem desenvolvidas.

A equipe de curricula da Universidade de North Carolina acrescentou idéias de Bloom ao trabalho de Manzano como base para uma ação prática que pode ser conhecida em http://www.ceap.wcu.edu/Houghton/Learner/Think94/homeNCthink94.html

Como ninguém é perfeito, Marzano tem discutíveis convicções sobre padronização de ensino que, felizmente, não tiram o valor de suas outra importantes idéias.

Bibliografia

- What Works in Schools: Translating Research into Action, ASCD, 2003.
- The Pathfinder Project: Exploring the Power of One, Pathfinder Education, Inc., ASCD, 2003.
- Marzano, Robert J., "A Different Kind of Classroom: Teaching with Dimensions of Learning", ASCD, 1992.
- A Handbook for Classroom Instruction That Works (Marzano, Paynter, Pickering, & Gaddy, ASCD, 2001.
- Classroom Instruction That Works: Research-Based Strategies for Increasing Student Achievement (Marzano, Pickering, & Pollack, ASCD, 2001.

fim